12.º4C

Entretanto perdi-lhes a conta, aos anos que passaram desde que deixamos a Escola Secundária Raul Proença. Quantos foram ao certo? Não os suficientes para abalar o orgulho imediato que esta notícia espoleta. Nunca serão os suficientes. Éramos adolescentes, a viver os desafios que a biologia tinha guardados para nós. Para além disso, éramos a última geração analógica e a primeira digital. Ó caos, ó privilégio da transição.

Uma agenda cheia de emoções, portanto. Acordávamos fãs de um heterónimo pessoano e adormecíamos a odiá-lo, amando e odiando todos os outros um milhar de vezes ao longo do dia. Éramos tudo o que um adulto havia de deixar de ser. Pelo menos era isso que ouvíamos fora da escola. Nunca lá dentro. Sabíamos que haveríamos de adultecer e era isso que estávamos ali a preparar, não à espera que a adolescência passasse como passa uma constipação.

Éramos nutridos e desafiados. Pulávamos de aula em aula. Íamos à biblioteca como noutras escolas iam à loja das gomas. Amigos de outras escolas falavam de quadros partidos e como contornar o porteiro. Nós ansiávamos pela semana cultural e inocentemente atribuíamos ao acaso o portão estar permanentemente aberto. Não precisávamos ser fechados, queríamos estar naquele espaço.

Memorizámos cada encosto daquelas cadeiras e cada uma das voltas até aos confins do espaço, que era como chamávamos à sala 42 do bloco B. No último piso, bem lá no fundo. Entretanto já esquecemos o primeiro telemóvel, o primeiro beijo, o primeiro charro, mas nunca deixamos apagar aqueles caracteres mágicos: 10.º4C, naturalmente convertidos em 11.º4C e, por fim, 12.º4C.

Por essa altura tínhamos conhecido e construído relações com alguns dos adultos mais interessantes com quem nos haveríamos de cruzar pela vida fora: os professores. Por isso, não resisto a recordar três deles.

Começo pela incansável Ana Filomena Curado. Durante três anos exigiu-nos uma escrita depurada, pontuada e ordenada. Sentíamos que nos pedia que fôssemos Cardosos Pires na folha de ponto. Um impossível cujo prefixo caiu no instante em que vimos os resultados das provas globais nacionais. O continuado carinho exigente mostrou-nos que podíamos estar entre os melhores.

Depois vem-me à memória o Vítor Lopes, que conseguia cativar o mais distraído dos alunos para a disciplina da geografia. A última aula pode ser descrita como vinte e poucos adolescentes tentando não desabar em lágrimas perante o discurso de despedida mais humano do planeta. Um dia, num dos momentos de avaliação coletiva, disse-me: “tu vês as coisas antes dos outros e não é por estares na primeira fila.” Conseguem imaginar o impacto desta frase num adolescente?

Por fim, a diretora de turma Cândida Calado. Ouviu cada uma das nossas preocupações e frustrações e tratou-as como a coisa mais natural do mundo. Quando a comunicação não corria bem em alguma disciplina não era necessariamente ausência de disciplina dos alunos, mas duas partes a serem ouvidas por igual. O cumprimento do programa era também uma grande preocupação sua, mas teríamos todos perdido bem mais sem as suas conversa do que por não termos chegado ao capítulo dedicado à segunda metade do século XX.

Compreendem como estas pessoas, entre outras, marcaram uma criança que brinca para aqui com vírgulas, tem saudades do futuro e quer saber o máximo das coisas? Bem mais do que isso, marcaram um ano inteiro de alunos, outros antes e, garantidamente, todos desde então. O conteúdo da notícia não é fruto do acaso nem se constrói da noite para o dia. É por esse motivo que o orgulho cresce, mas da surpresa nem sinal.

 

[Texto escrito por ocasião de uma reportagem vídeo com o título Excelência da escola está nas Caldas da Rainha de 13 Junho 2018]

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